Conhecimento para Sócrates (470-399 AC) era o ato de se tornar consciente de si, de crescer intelectual, moral e espiritualmente. Já Protágoras (481-420 AC) via no conhecimento uma forma de se tornar eficiente, saber o que dizer e como dizer. Até Ford (1863-1947 DC) e um tanto mais de tempo, perdurou o significado do conhecimento como o que atribuído a Protágoras: informação, lógica e oratória. Um bem de, e para, seu detentor. Mais recente, na década de 60, ainda poder-se-ia conseguir um “bom emprego” (daqueles que definham o cérebro até a aposentadoria) sem uma única titulação, sem um curso técnico/universitário (saber ler era necessário, mas só às vezes). Neste tempo, já não tão distante, os principais fatores de produção eram capital, terra (ou outros recursos físicos) e mão-de-obra (leiam-se braços). Sim, braços, muitos braços, e não cérebros!
Na economia atual, a dita economia do conhecimento, os braços já não contam tanto. O conhecimento é o principal fator da economia e o homem, o seu único vetor. Sem gente, que possa aplicá-lo, o conhecimento não passa de informação, não produz, não gera valor econômico! O homem, portanto, desempenha o mais importante papel na economia. Não pelo trabalho que ele pode produzir, como uma máquina movida a ATP, que gera calor e move engrenagens, mas pelo resultado que ele pode gerar como uma máquina que desenha outras, que serve outras, que cria e inova, causando um impacto sócio-econômico de centenas (ou milhares) de vezes maior que os ATP consumidos no processo.
Os meios de produção também mudaram. Geografia, língua, cultura já não importam (se ainda contam alguma coisa). Com um celular e um notebook pode-se, conectado a rede e em rede, produzir de qualquer lugar para qualquer lugar, em qualquer língua, a qualquer hora, rezando-se pra Jesus ou Maomé. Eu pessoalmente vivi a experiência de orbitar entre Solothurn-CH, St. Petersburg-RU, Cardiff-UK e Recife-BR por três anos (de Recife, o trabalho era puramente remoto, no conforto da família, a alguns milhares de quilômetros do “centro” de produção). Num cenário como este, os parâmetros de avaliação de desempenho, recompensa e remuneração e mesmo a organização do trabalho deveriam ser radicalmente diferentes daqueles em que viveram nossos pais. Certo?
Os RHs reconhecem tudo isso e as pessoas também. Trocaram o nome pra capital humano, afirmam que gente é o principal ativo da organização. Mas… Pararam por aí. A métrica de remuneração ainda é o tempo que o colaborador passa na empresa, esteja ele produzindo, navegando no orkut ou vendo filmes no youtube (e se ficar mais tempo, ainda é premiado com horas-extras). Pois bem, assim determina a CLT, e desde o tempo de Vargas (1882-1954 DC). O desenvolvimento pessoal é tutelado também (fazendo os cursos 1,2 e 3, você atingirá o nível 30, e estará apto a exercer o cargo 9, sim, depois que atingir 5 anos de casa, etc, etc). Ou ainda, duas pessoas nos mesmos cargos devem receber a mesma remuneração (apesar de uma delas trazer duas vezes o resultado da outra). Uniformidade nas diferenças… E por aí vai.
O mundo mudou, os meios de produção também, mas insistimos em nos organizar da mesma forma, pois nos sentimos mais seguros com arranjos testados, conhecidos. Será que não está na hora de uma mudança disruptiva na forma de se avaliar, medir, recompensar e principalmente organizar o trabalho? Uma forma que permita usufruirmos dos riscos e benefícios da nova era? No meu entender sim. e não é uma mudança unilateral (nós e as organizações temos que mudar). Ter a liberdade de trabalhar de qualquer lugar (precisamos estar colocados?), e o tempo que todas as ferramentas atuais nos entregaram em produtividade. Sem ponto, sem hora-extra também, mas (com muita responsabilidade e) remuneração compatível ao resultado dos ATP consumidos na cabeça, não nos braços. Estamos prontos pra isso? Em parte, acho já ser possível. Existe o risco do colaborador trabalhar muito mais (pelo mesmo quinhão)? Judith Mair (Chega de Oba-Oba) afirma que sim, eu não! E você, o que acha?